Luís Caetano Lobo

Biografia

Nasceu em Goa no dia 24 de Julho de 1816. Em 1841 inicia em Coimbra o Curso de Teologia. Em simultâneo frequenta a Faculdade de Direito com o sonho de um dia mais tarde ser professor nessa Faculdade. Em 1851 obtém o grau de Doutor com apenas 35 anos. Parecia que o sonho se iria realizar. Na verdade não foi assim. Caetano Lobo pertencia à alta aristocracia indiana, sendo de origem brâmane. Tudo leva a crer que este facto foi determinante no afastamento de Caetano Lobo como professor na faculdade de Direito.

Caetano Lobo vem então para Arganil no ano de 1856 / 57. Aqui dá forma ao seu sonho de ensinar, não na cátedra, como tinha sonhado, mas junto de uma população esmagadoramente analfabeta, sendo raros os que sabiam ler ou escrever. Caetano Lobo não se ficou pelo ensino das primeiras letras, mas leccionou a muitos dos seus alunos disciplinas como o Francês, Latim, Literatura e Lógica, preparando os alunos para o ensino superior. Mais tarde propõe à Câmara Municipal a construção de uma escola no Paço Pequeno, para que o ensino das letras se faça com maior qualidade.

Outra das suas paixões era a Música. Arganil tinha nessa altura duas Filarmónicas: a Música Nova e a Música Velha, nascidas da primeira Filarmónica criada pelo Padre Vasconcelos Delgado. Divisões várias dentro da Filarmónica dão origem à cisão. Caetano Lobo toma a seu cargo a Filarmónica Música Nova e a ela se dedica de alma e coração.

Entretanto Caetano Lobo foi também advogado de prestígio, acabando por adquirir casa em Arganil mais propriamente na Portelinha, onde viveu com sua família até à sua morte em 29 de Novembro de 1890.

Luís Caetano Lobo, como já se disse, não era arganilense por nascimento: era-o por adopção. Nascera, aliás, muito longe de Portugal; tão longe que, dizia-se, «tinha demorado um ano para cá chegar». Com efeito era indiano, natural da então chamada Índia Portuguesa. Viera ao mundo em Lalisão, freguesia do mesmo nome, no concelho de Bardez, em Goa, no dia 24 de Julho de 1816.
Era filho de Manuel do Rosário Lobo e de D. Ana Caetana Maria Mafalda Marques; tinha um irmão, chamado Augusto César. Seu nome completo era Luís Caetano Francisco António Jerónimo Vicente Guilherme de Santa Ana Lobo.
Pertencia à alta aristocracia indiana: era de origem brâmane, a casta sumamente privilegiada dos sacerdotes induístas. No entanto, a família havia-se convertido ao catolicismo.

Mapa de Goa

Vista Geral de Goa

Universidade

Enquanto aprendia as primeiras letras terá revelado logo inteligência muito viva e invulgar amor ao estudo. E perante o seu desejo de estudar – desejo que os pais não podiam satisfazer – sua madrinha prontificou-se a custear-lhe os estudos – contanto que quisesse seguir a vida eclesiástica, impôs. Não era este o rumo que gostaria de tomar – terá confidenciado mais tarde – mas aceitou… E o pequeno Luís lá deu, com efeito, entrada num seminário de Goa, a «Roma do Oriente» onde, como é sabido, se formava a maior parte do clero que servia a Igreja naquelas bandas.

Diploma

A queda para o estudo e a inteligência acentuaram-se durante o curso e de tal modo que terá ficado decidido que iria para Coimbra, na altura própria, a fim de se formar em Teologia na respectiva Universidade. Em consequência desta decisão, depois de ter recebido «ordens menores» em Goa, a 8 de Dezembro de 1832, parte para a cidade do Mondego com destino ao seminário local, onde teria de percorrer ainda o caminho que lhe faltava para o presbítero, cuja ordenação requereu a 12 de Setembro de 1845, segundo informação de monsenhor Nunes Pereira em artigo que lhe dedicou. Quiseram as circunstâncias que fosse uma viagem sem regresso: de facto, não voltaria mais à Índia onde nascera, mas que, não obstante, mantinha viva no coração.

Gorro

Capelo

Tempos antes, porém, no ano lectivo de 1841/42, havia iniciado o curso de Teologia, que viria a terminar em 1845/46.
No entanto, a partir de 1843/44 começou a tirar o curso de Direito também, de que obteria o grau de Bacharel em 1848 e em que se viria a formar no ano seguinte.

Tudo indica que Luís Caetano Lobo tenha nascido fortemente vocacionado para ensinar. E, sendo assim, é natural que durante o curso de Direito lhe tenha surgido a ideia, logo feita ambição, de um dia vir a ser professor da respectiva faculdade. Por isso, mal acaba o curso, começa a preparar o seu doutoramento em Leis; e quando dá por finda essa preparação, candidata-se, presta provas e, no dia 25 de Maio de 1851, obtém finalmente o ambicionado grau de doutor. Tinha então 35 anos.

A sua «dissertação inaugural» foi subordinada ao tema: Qual a forma de pagamento dos juros vencidos até o presente por um capital mutuado nas duas espécies, metal e papel-moeda, anos antes do Decreto de 23 de Junho de 1834. Fundamentou essa dissertação nas teses (redigidas em latim) que preparou e publicou para o efeito; dedicou-as aos seus conterrâneos, em termos comovidos, que julgo poder traduzir assim: «Aos seus conterrâneos, lá longe, sempre caríssimos e saudosíssimos, em público e eterno testemunho de amor, dedicação e reconhecimento».

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Tese em Latim

Tese

Simplesmente, o grande sonho da sua vida nunca se transformaria em realidade. É certo que ainda chegou a dar aulas na Faculdade, porém, unicamente em situação precária. Em suma: a Universidade de Coimbra rejeitara-o para professor! Por ser incompetente? Não, muito longe disso. Porquê então? Por preconceito racial? Tudo indica que sim! A «velha Universidade», esquecida da nobre vocação progressista que devia ser, verdadeiramente, a sua, fechara-lhe a porta de acesso à cátedra!

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

De nada valeu ao novel doutor provir da gente mais privilegiada da Grande índia; de nada lhe valeu ser de origem brâmane – a casta dos que, quando saíam à rua, se faziam anunciar previamente a fim de que os intocáveis se afastassem do seu caminho! Mas nisto de pergaminhos quem sabe deveras é a Universidade; e a velha Escola coimbrã – ela própria um pergaminho – lá entendeu, em seu alto critério, que, na circunstância, o intocável era o brâmane – e impediu-o de chegar a lente!

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Luís Caetano Lobo terá sido então convidado a vir ocupar o lugar de reitor e arcipreste nesta terra, onde foi efectivamente colocado a 4 de Julho de 1857; mas já no ano anterior aparece ligado à sua nova igreja. Quer dizer, em 1856, provavelmente, deixa Coimbra a caminho de Arganil, para aqui ocupar o lugar de reitor e arcipreste (no ano seguinte).

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Uma vez em Arganil, foi, naturalmente, instalar-se na residência paroquial, ou seja na «Casa do padre» como então era conhecida. Esta residência, que ficava mesmo ao lado da igreja, no cruzamento das actuais ruas Caetano Lobo e Alberto Moura Pinto, foi há pouco demolida para dar lugar ao prédio que actualmente ali se encontra.

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Arganil no ínicio do Séc. XX

«Arganil, antes da nomeação do Dr. Luís Caetano Lobo para seu reitor, estava num atraso intelectual pouco mais que primitivo, sendo raros os filhos do povo que saibam ler e escrever. Condoído deste estado ele, o sábio ilustre, mete ombros a esta tarefa e, desbravando terreno quase virgem, começa a ensinar (…) os primeiros rudimentos de leitura e escrita, transformando a residência paroquial numa verdadeira escola, em que recebiam o pão do espírito centenas de crianças e muitos adultos. Pouco tempo volvido, tudo sabia ler: homens, mulheres e crianças bendiziam então, num coro uníssono, o nome do reitor.»

Carlos da Capela
In: Notícia da Vida do Padre Luiz Caetano Lobo

Luís Caetano Lobo chega a Arganil e de imediato se interessa e se integra na vida social, promovendo e estimulando a riqueza cultural do meio. Logo em 1857 Caetano Lobo traz a Arganil o Bispo de Coimbra, recebendo-o em sua casa com fidalguia e lhaneza. Caetano Lobo era já um homem conhecido na cidade universitária e isso prestigiava também a nossa terra. Em Arganil inicia Caetano Lobo uma verdadeira revolução no ensino das primeiras letras. É o irmão Fenelon que, com sua experiência e aprendizagem na Loja de Coimbra, “Pátria e Caridade”, desenvolve acção meritória e pioneira. O Conimbricense saúda a “florescente escola de Arganil” e apelida Caetano Lobo de “apóstolo do progresso”. António Feliciano de Castilho, no consagrado jornal Conimbricense, louva os méritos do professor de Arganil e, decerto, rejubila pela aplicação do seu método, método este levado à prática por seu “irmão” Caetano Lobo.

Carlos da Capela
In: Notícia da Vida do Padre Luiz Caetano Lobo

Vista Geral de Arganil

“A história do meu ensino é a seguinte. Quando , depois dos meus trabalhos quadragesimaes de 1857, quis preparar os meninos e as meninas desta freguezia na doutrina christã, de que ella estava absolutamente falta, e para a sua primeira comunhão estabeleci uma lição nocturna de cathecismo, mesmo na egreja; e ahi, por vezes, mostrava aos meninos com que facilidade o aprenderiam se soubessem ler, e dizia-lhes que não duvidaria de lhes ensinar depois da sua communhão. Não lhes esqueceu esta minha promessa! E na noite dessa solemnidade, no fim de ter dado com elles as graças ao Altíssimo, lembraram-no e o fizeram com tanta ingenuidade, que me arrebataram a pedir seus nomes; comecei ahi mesmo , na egreja, e a lápis, a tomalos! mas não acabei, tanta era a affluência. Daí a alguns dias , apezar da falta da casa, e arranjos, vencido pelas instâncias dos meninos, dei começo á aula n’uma pequena casa da recebedoria deste concelho. Entraram como alumnos 104 indivíduos de toda a idade, pela maior parte meninos, e meninas (estas eram 54). À hora nocturna (única acommodada á gente laboriosa), e para tamanho numero, era impossível empregar outro methodo que não fosse o portuguez simultâneo; adoptei-o por necessidade sem pensar na sua bellesa; ainda que  dele tenha uma pequena idea, por ter assistido algumas vezes às prelecções de v. ex.ª, em Coimbra, em virtude do convite que v. ex.ª dirigira aos parochos daquela cidade, por intervenção do nosso sempre lembrado prelado, e cuja utilidade nunca me esquecera; era eu então parocho da hoje extinta freguezia de S. Thiago da mesma dita cidade.”

Carlos da Capela
In: Notícia da Vida do Padre Luiz Caetano Lobo

António Feliciano de Castilho

Carta do Sr. António Feliciano de Castilho

“Comecei-o pois, sem arranjos alguns; e enquanto não chegaram o livro do methodo, e os quadros, já os alumnos todos compunham e decompunham auricularmente toda e qualquer palavra, a mais complicada, e o faziam com tanta perfeição, e rapidez, que enchiam de summa admiração os numerosos espectadores. E tal era a affluência destes que, por mais de mez e meio, embaraçaram muito o serviço!”

Carlos da Capela
In: Notícia da Vida do Padre Luiz Caetano Lobo

“Chegaram finalmente, no fim de 15 dias, o livro e os quadros das letras, e só estes, porque nada mais havia de venda em Coimbra! Continuei com estes mesmos, supprindo, por imitação, o que era possível supprir-se, principalmente depois para a escripta; de maneira que, depois deste mez e meio, não havia ninguém nesta villa, e nos seus arredores, que não acreditasse e estivesse convencido dos milagres da minha aula. Uns o attribuíam ao nímio estudo que eu teria feito por methodo! Outros, a outras cauzas; Mas todos convinham, como agroa convém, no facto verdadeira espantoso.”

“A ordem era a seguinte: – depois das Ave-Marias davam-se dois signaes na torre. As meninas já desenvolvidas vinham na companhia de alguém da família, ou de uma visinha. Na aula havia uma completa separação dos bancos para os meninos e meninas, tudo como prescreve, a este respeito, o mesmo methodo. A casa sufficientemente alumiada. E dois sobreditos menoristas, mui intelligentes, e de bons costumes, andavam constantemente vigiando os bancos. Na saída havia a mesma cautella, saíam primeiros os rapazes, e depois as raparigas.”

“Os hymnos da entrada, e saída, ou do trabalho, e as regras, tudo bem cantado, e variado o canto nas regras. Passado o primeiro mez, todos os oito dias havia prémios aos que lessem os dísticos que se lhes apresentava para isso.”

“Cada vez mais gostoso do ensino, passou elle a ser para mim um encanto, não havia obrigação que me lembrasse nessa hora! E para os meninos?! Era tal o seu enthusiasmo, que basta dizer-se que o maior castigo que os pais lhe podiam dar, e o melhor meio de os obrigar a trabalhar, era a ameaça de os não mandar à lição!!…”

“Depois deste tempo, continuei eu com alguns, em número de 12 meninos e 6 meninas, com o ensino mais superior: – tratei de ensinar a geographia, a história, complexos, também pelo methodo simultâneo, pela geografia da infância pelo sr. A. P. Forjaz; e também obtive, em muito pouco tempo, tão bons resultados, que todos viam com admiração com que facilidade aquelas creancinhas marcavam nos mappas os paizes principaes da Europa, suas capitães, etc., etc.”

Carlos da Capela
In: Notícia da Vida do Padre Luiz Caetano Lobo

De facto, a primeira filarmónica arganilense deve ter surgido em 1853, por iniciativa do padre Delgado. Porém, em finais de 1854, princípios de 1855, essa filarmónica cindiu-se em duas: a Música Nova e a Música Velha, que, aliás, passaram a ter existências algo difíceis. Em face deste quadro Caetano Lobo dedicou-se de alma e coração à Música Nova – dedicação que levou ao ponto de a manter à sua custa e a dirigir pessoalmente.

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Filarmónica Arganilense (sem data)

Santuário do Mont’ Alto

Santuário do Mont´Alto

Hospital do Senhor da Agonia

O Hospital do Senhor da Agonia está, pois, na origem do Hospital Condessa das Canas. A bem dizer, o seu maior mérito terá sido mesmo o de chamar a atenção para a falta que fazia uma instituição dessa natureza em Arganil, porquanto a sua acção foi curta, sempre difícil e forçosamente limitada. Em rigor nunca terá passado de modestíssimo hospício. Ficara no entanto a ideia que a mente fecunda e generosa de Caetano Lobo um dia concebera e a que a alma caridosa da Condessa permitiria dar plena realização.

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Padre Luís Cateano Lobo

Noticiário no Conimbricense

Noticia no Conimbricense

Noticia no Conimbricense

Noticia no Conimbricense

Notícia no Conimbricense

Um advogado com a fama de Luís Caetano Lobo ganhou por certo muito dinheiro ao longo de uma vida profissional activa, como foi a sua. Em contrapartida, a sua vida particular obrigava-o a grandes despesas (tão grandes, digamo-lo entre parênteses, que acabariam mesmo por comprometer boa parte dos seus haveres). Nesta ordem de ideias, alguns anos após a chegada a Arganil, adquiriu uma propriedade rústica nos aros da vila, na Portelinha, a fim de aí construir casa de habitação própria e montar uma pequena exploração agrícola anexa, essencialmente destinada ao abastecimento doméstico: era a Casa da Portelinha. Esta decisão terá sido precipitada pelo facto da residência paroquial estar velha e precisar de obras urgentes.

Assim sendo, logo que pôde – julgo que por volta de 1862 – Luís Caetano Lobo transfere-se para ali, com a família que o servia na residência paroquial.

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

Padre Luís Cateano Lobo

Doutor Luiz Caetano Lobo

Comemorações do Centenário da morte

Padre Dr. Luiz Caetano Lobo

Homenagem ao Padre Dr. Luiz Caetano Lobo

Luís Caetano Lobo faleceu inesperadamente a 29 de Novembro de 1890. Tinha 74 anos. Era manhã, por certo manhã fria de Novembro. Arganil acabava de perder o tesouro de uma bela amizade. E uma névoa de tristeza ficou a pairar no coração dos Arganilenses…

Amândio Galvão
In: Figuras Notáveis de Arganil

ALGUMAS OBRAS DA BIBLIOTECA PARTICULAR DO DR. LUIS CAETANO LOBO