Miguel Torga

Miguel Torga está ligado ao Concelho de Arganil por laços profissionais e de amizade.
21 de Novembro de 1948, a convite do Dr. Fernando Valle que na altura exercia o cargo de Director Clínico do Hospital Condessa das Canas, o médico Adolfo Rocha especialista em otorrinolaringologia, começou as suas consultas nesse hospital. Com o médico Adolfo Rocha veio o poeta e escritor, Miguel Torga.
A amizade com Fernando Valle que teve início quando ainda estudantes em Coimbra foi duradoura, só terminando quando a morte os separou.
Os locais por onde passou durante as caçadas que fazia um pouco por todo o concelho de Arganil ficaram para sempre imortalizados na sua obra.

Adolfo Correia da Rocha, nasce a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, uma pequena aldeia em Trás-os-Montes, filho de Pais lavradores. Em 1913 começa a Escola Primária;

1917 – O facto de ter concluído a 4ª classe com distinção, leva o pai a pensar que o seu futuro não poderia ser a enxada;
1917 – Vai para o Porto supostamente trabalhar num escritório, mas acaba a servir em casa de uma família. A sua rebeldia começa a manifestar-se. É também aqui que começam as primeiras leituras que o irão influenciar: Irmãos Grimm, Fábulas de La Fontaine, Hans Christian Andersen;
1918 – Com a ajuda do prior da aldeia, vai para o Seminário de Lamego, onde permanece um ano;
1919 – Nas Férias de Verão decide não voltar ao seminário;
1920 – Sentindo que em Portugal não tinha futuro, os pais aconselham-no a partir para o Brasil, onde o espera o tio paterno;
1924 – O tio manda-o estudar para o Ginásio de Leopondina;
1925 – Regressa a Portugal com os tios;
1925 – Vai para um colégio em Coimbra, onde faz o liceu em três épocas, contando sempre com a ajuda económica do tio; Continua a escrever agora admirando especialmente Antero de Quental;
1928 – Inicia o curso de Medicina em Coimbra;
1928 – Publica o primeiro livro de versos “Ansiedade” que posteriormente retira das livrarias, considerando-o “uma pobre colectânea de sonetos e canções”;
1929 – Participa nos meios literários em especial no grupo da Revista Presença. Aí publica “Balada da Morgue”;
1930 – Corta, por carta aberta, com a “Presença”. Acompanham-no Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca;
1930 – Com Branquinho da Fonseca funda a revista “Sinal”, que terá apenas um número; Publica Rampa, outro livro de Versos;
1931 – É publicado o terceiro livro de versos “Tributo” e o primeiro livro em prosa «Pão Ázimo»;
1932 – Publica “Abismo”, poesia;
1933 – Conclui a licenciatura em Medicina e começa a exercê-la na sua terra natal;
1934 – Vai exercer medicina para Vila Nova a 30 Km de Coimbra, onde se desloca todas as semanas para contactar os amigos e ir às livrarias;
1934 – Publica o segundo livro de poesia “A Terceira Voz”, onde pela 1ª vez assina Miguel Torga em homenagem a Molinos, Cervantes e Unamuno;
1936 – Publica “O Outro Livro de Job”; Com Albano Nogueira funda a revista Manifesto, que terá apenas 5 números;
1937 – Viaja até França, Itália , Bélgica, passando pela Espanha franquista;
1937 – Publica a “Criação do Mundo  – Primeiro e Segundo Dia”;
1938 – Publica “Criação do Mundo – Terceiro Dia”; Especializa-se em otorrinolaringologia;
1939 – Começa a exercer em Leiria como otorrinolaringologista; Publica “Criação do Mundo – Quarto Dia”;
1940 – Sai da cadeia do Aljube;
1940 – Casa com a belga Andrée Cabrée que lhe fora apresentada por Vitorino Nemésio; Começa a viajar por Portugal; Publica “Os Bichos”;
1941 – Abre em Coimbra, no Largo da Portagem, o seu consultório de Otorrinolaringologista, que ocupará quase até ao final da sua vida; Publica “Contos da Montanha” apreendido pela PIDE; Publica a conferência “Um Reino maravilhoso”; Publica o primeiro volume do “Diário”; Publica “Terra Firme” e “Mar”, duas peças de Teatro;
1942 – Publica o quarto volume do “Diário”; Publica “Paraíso” (Teatro);
1943 – Publica “Lamentação” (poesia); Publica “O Senhor Ventura” (contos); Publica o segundo volume do “Diário”;
1944 – Publica “Libertação” (poesia); Publica “Novos Contos da Montanha”; Publica “Porto” (conferência);
1945 – Sua mulher é nomeada professora da Faculdade de Letras de Lisboa;
1946 – Publica “Odes”; Publica o terceiro volume do Diário;
1947 – Por motivos políticos Andrée Crabée é demitida da Faculdade, por ordem de Salazar; Publica “Sinfonia” apreendido pela Polícia;

1948 – Morre sua Mãe;
1950 – Faz uma segunda viagem a França, Itália e Suíça e Espanha; Publica “Cântico do Homem”; Publica “Portugal”;
1951 – Volta a viajar por Espanha; Publica o quinto volume do Diário;
1952 – Publica Alguns Poemas Ibéricos;
1953 – Faz um cruzeiro pelo Mediterrâneo;
1953 – Faz uma viagem à Grécia e à Turquia, na companhia de outro grande amigo de sempre: o Dr. Fernando Valle, médico em Arganil, prestigiada figura da Oposição ao regime e mais tarde Fundador do Partido Socialista. A amizade entre Miguel Torga e Fernando Valle durou longos anos e foi duma rara fidelidade;
1954 – Recusa o prémio literário atribuído por ocasião das Comemorações do centenário de Almeida Garrett; Vai ao Brasil a convite do Congresso de Escritores. Visita a Fazenda e locais onde viveu; Publica “Penas do Purgatório”;
1955 – Nasce a sua filha, Clara; Publica “Traço de União”;
1956 – Morre o Pai; Publica o sétimo volume do Diário;
1958 – É homenageado pelos colegas do Curso pelas Bodas de Prata de médico; Publica Orfeu Rebelde (poesia);
1959 – Publica o oitavo volume do Diário; Publica “Pedras Lavradas”; Publica o quinto volume do Diário; 1952 – Publica Alguns Poemas Ibéricos;
1960 – É proposto para Prémio Nobel por Jean-Baptista Aquarone, especialista em Estudos Luso-Brasileiros da Faculdade de Montpellier;
1962 – Publica – “Câmara Ardente”;
1964 – Publica o nono volume do Diário;
1965 – Publica Poemas Ibéricos;
1968 – Publica o décimo volume do Diário;
1968 – Publica o décimo volume do Diário;
1974 – Sua Mulher é nomeada catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Publica o XII Diário; Publica “Fogo Preso”;
1977 – Vai a Bruxelas para receber o Prémio Internacional de Poesia;
1978 – É novamente proposto para o Prémio Nobel da Literatura; Recebe a medalha de Honra da Associação Internacional de Reitores; Homenageado na Fundação Calouste Gulbenkian, pelos cinquenta anos de actividade literária;
1979 – É homenageado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Carlos Reis profere a conferência “Miguel Torga e o Paradigma Perdido”;
1980 – Prémio Morgado de Mateus; Publica “A Criação do Mundo – O Sexto Dia”;
1981 – A 10 de Março de 1981, recebe o Prémio Montaigne, atribuído pela Fundação F.V.S. de Hamburgo (Alemanha) ;
1981 – Publica “Antologia Poética”, organizada por si;
1983 – Celebra as bodas de ouro de médico; Publica “Diário XIII vol.”;
1984 – Viaja até ao México na companhia do seu amigo o Padre Valentim;
1987 – Publica “Diário XIV vol.”; A EMI – Valentim de Carvalho grava um disco com oitenta poemas de Miguel Torga, ditos pelo próprio;
1989 – Recebe o Prémio Camões, o mais importante galardão no âmbito da lusofonia. A cerimónia de entrega do prémio, presidida por Mário Soares, decorre em Ponta Delgada, nos Açores, durante as comemorações do 10 de Junho;
1990 – É homenageado em Paris, no âmbito das comemorações dos 700 anos da Fundação da Universidade de Coimbra; É homenageado pelo Instituto Alemão de Coimbra a propósito da edição na Alemanha de vários livros de Miguel Torga traduzidos.
1991 – A revista Le Cheval de Troie,de Bordéus , dedica-lhe um número especial; Publica “Diário XV vol.”;
1991 – A Associação Portuguesa de Escritores, propõe o seu nome para o Nobel;
1992 – Recebe o prémio Vida Literária, atribuído pela primeira vez pela Associação Portuguesa de Escritores e financiado pela Caixa Geral de Depósitos; É considerado a Personalidade do Ano, pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal; No Porto realiza-se um Encontro Internacional sobre a sua obra; Setembro de 1994, Andrée Cabrée Rocha lê a última mensagem pública do poeta; Morre no dia 17 de Janeiro de 1995.

Diário I

Diário II

Diário III

Diário IV

Diário V

Diário VI

Diário VII

Diário VIII

Diário IX

Diário X

Diário XII

Diário XIII

Diário XIV

Rampa

Poemas Ibéricos

O Senhor Ventura

Penas do Purgatório

Presença

Pedras Lavradas

Orfeu Rebelde

Fogo Preso

Novos Contos da Montanha

O Outro Livro de Job

A Criação do Mundo I

A Criação do Mundo II

A Criação do Mundo III

A Criação do Mundo IV

A Criação do Mundo – O Sexto Dia

Contos da Montanha

Cântico do Homem

Ansiedade

Câmara Ardente

A Terceira Voz

1º Sinal

Miguel Torga

Traço de União

O Senhor Ventura

Vindima

Odes

Cântico em Honra de Miguel Torga

Rua

Antologia Poética

Libertação

Nihil Sibi

Adolfo Correia da Rocha, nasce a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, uma pequena aldeia em Trás-os-Montes, filho de pais lavradores.

Miguel Torga e Mãe

Pai, Mãe e Irmã de Miguel Torga

Negrilho de São Martinho de Anta

Poema
A Um Negrilho

ROMANCE

Ora pois: foi tal qual como vos digo:
Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:
– Ou Ela, ou eu!
E ficou resolvido que no dia doze
Minha Mãe parisse,

E pariu!

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
Como se fosse um feito glorioso
Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
Por mim,

Ainda disse que não.

Mas o seu Anjo da Guarda
Era forte e tenebroso…
E aquele frágil cordão
Deixou de ser o meu Pão,
O meu Vinho

E a paz eterna do meu coração

Mesquinho.

Deixou de ser o silêncio

Delicado e agradecido
Dos meus instintos menores…
Deixou de ser o Norte daquele lago
Onde boiava o meu corpo
Sem alegria e sem dores.

Deixou de ser aquela verdadeira

E sagrada ignorância do meu nome,
Que Satanás me disse, quando disse:
-Respira e come,
Respira e come,

Animal!
(A voz de Satanás já nesse tempo
Era humana e natural…)

Deixou de ser um mundo e foi um outro.
Foi a inocência perdida
E a minha voz acordada…
Foi a fome, a peste e a guerra.
Foi a terra

Sem mais nada.

Depois,
Sem dó nem piedade a vida começou…
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
E, ao ver que eu era homem,

Corou…

In, O Outro Livro de Job. (1936)

Em 1913 começa a Escola Primária.

1917 – O facto de ter concluído a 4ª classe com distinção, leva o pai a pensar que o seu futuro não poderia ser a enxada.

“Pouco tempo depois dos exames, o senhor Botelho mandou chamar meu Pai, e teve com ele uma longa conversa na minha presença. Era pena que eu não seguisse os estudos. Sabia das dificuldades em que vivíamos, que os tempos iam maus, e tudo o mais. Em todo o caso, visse lá se podia fazer um sacrifício e mandar-me para o liceu da Vila. Meu Pai sorriu tristemente. O senhor Botelho estava a mangar… Olha liceu! Só se empenhasse o cabo da enxada … Gostava, gostava, de me ver professor, ou médico, ou advogado. Mas nicles, faltava o melhor! E onde o não há, el-rei o perde… Já se lembrara do seminário. Aí é que talvez pudesse ser. Se arranjasse a meter-me de graça ou a pagar qualquer coisa pouca…

O mestre reagiu. Padre! País desgraçado, o nosso! Os melhores alunos que lhe passavam pelas mãos, ou ficavam ali amarrados à terra, a embrutecerem, ou eram arrebanhados pela Santa Madre Igreja. Não! Tudo, menos papa-hóstias. Então, era o Brasil.”

In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia

Escola Primária

1917 – Vai para o Porto supostamente trabalhar num escritório, mas acaba a servir em casa de uma família. A sua rebeldia começa a manifestar-se. É também aqui que começam as primeiras leituras que o irão influenciar: Irmãos Grimm, Fábulas de La Fontaine, Hans Christian Andersen.

1918 – Com a ajuda do prior da aldeia, vai para o Seminário de Lamego, onde permanece um ano.

“Lavado em lágrimas, despedi-me de meus Pais, que meteram afoitamente pela ladeira acima a tanger a burra, que queria ficar. Ainda em soluços, vi-os dobrar a esquina e desaparecer. A enxugar os olhos, subi os três lanços de escada que levava ao segundo andar, onde encontrei os companheiros que iria ter.
Passei o resto do dia à espera de ouvir daqueles desconhecidos uma palavra de consolo. Mas eram infelizes como eu, que a pobreza trouxera até ali, sem calor no coração para repartir. Benzeram-se e rezaram antes e depois do jantar, e eu imitei-os. Quando bateram as dez, enfiaram-se na cama. O que fiz também.”

In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia

1919 – Nas Férias de Verão decide não voltar ao seminário.

“Quase no fim das férias, declarei ao meu Pai que não queria ser padre.
Quando tal ouviu, a primeira coisa que fez foi correr à porta da rua a ver se alguém passava que tivesse ouvido a blasfémia. Depois, mandou-me calar, acrescentando que me partia a cara se eu continuasse a dizer baboseiras.
– Pedaço de asno! – concluiu. – A gente a querer tirá-lo da miséria, e ele a agradecer desta maneira!
Aquela atitude desabrida meteu-me medo. Mas a minha decisão era inabalável. Apertado de todos os lados – minha Mãe, coitada, só não se ajoelhou diante de mim, acabei por jurar que me atirava ao Douro da ponte da Régua se me fizessem voltar para o seminário.”

In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia

Miguel Torga jovem

1920 – Sentindo que em Portugal não tinha futuro, os pais aconselham-no a partir para o Brasil, onde o espera o tio paterno.

“- Filho ergue-te, que são horas. Já vem a romper o dia.
Era a minha partida para o Brasil. Ia na companhia do senhor Gomes, estabelecido no Rio, que viera à terra e voltava. Já que o irmão lhe respondera em tempos daquela maneira, meu Pai tratou da vida por outro lado, e escreveu-lhe apenas a dizer que me mandava. E ficou assim combinado: o comerciante levava-me; se meu tio aparecesse e quisesse tomar conta de mim, muito bem; se não, empregava-me ele.”

In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia

“Meu Pai acompanhou-me ao comboio. Na Vila fomos primeiro a uma tasca comer uma malga de tripas cada um, e, a seguir, dirigimo-nos para a estação ao encontro do senhor Gomes, que apareceu mesmo à hora da partida.
-Aqui lhe entrego o pequeno. Faça por ele o que puder, que eu , apesar de pobre, lho agradecerei um dia. E tu, já sabes: o mundo é dos homens!
Sabia e não sabia, ao mesmo tempo. Mas fiz de conta que sim. E, para mostrar que ia cheio de ânimo, disposto a lutar e a vencer, subi para a carruagem como se nada fosse.
Eu próprio estava admirado da minha serenidade, quer à despedida em casa, quer ali. Mas apenas o comboio se pôs em andamento, e meu Pai foi ficando cada vez mais longe, lavado em lágrimas na gare, cegaram-se-me subitamente os olhos e chorei desesperadamente.”

In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia

Ginásio Leopoldinense

1924 – O tio manda-o estudar para o Ginásio Leopoldinense na Praça Botelho Reis, Leopoldina, Minas Gerais.

Aí se matriculou Adolfo Rocha a 20 de Fevereiro de 1924 com o número 264.

1925 – Regressa a Portugal com os tios.

1925 – Vai para um colégio em Coimbra, onde faz o liceu em três épocas, contando sempre com a ajuda económica do tio. Continua a escrever agora admirando especialmente Antero de Quental.

1928 – Inicia o curso de Medicina em Coimbra.

Universidade de Coimbra

1928 – Publica o primeiro livro de versos Ansiedade que posteriormente retira das livrarias, considerando-o “uma pobre colectânea de sonetos e canções”.

1929 – Participa nos meios literários em especial no grupo da Revista Presença. Aí publica Balada da Morgue.

Ansiedade

Balada da Morgue

1930 – Corta, por carta aberta, com a Presença. Acompanham-no Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca.

1930 – Com Branquinho da Fonseca funda a revista Sinal, que terá apenas um número.

1931 – É publicado o terceiro livro de versos Tributo e o primeiro livro em prosa Pão Ázimo.

1932 – Publica Abismo, poesia.

Miguel Torga

Miguel Torga

1933 – Conclui a licenciatura em Medicina e começa a exercê-la na sua terra natal.

Coimbra, 8 de Dezembro de 1933 – Médico. Conforme a tradição, mal o bedel disse que sim, que os lentes consentiam que eu receitasse clisteres à humanidade, conhecidos e desconhecidos rasgaram-me da cabeça aos pés. Só deixaram a capa. E aí vim eu pelas ruas fora o mais chegado possível à minha própria realidade: um homem nu, envolto em três metros de negrura, varado de lado a lado por um terror fundo que não diz donde vem para onde vai.

In: Diário I

1934 – Vai exercer medicina para Miranda do Corvo, a 30 km de Coimbra, onde se desloca todas as semanas para contactar os amigos e ir às livrarias.

1934 – Publica o segundo livro de poesia «A Terceira Voz», onde pela 1º vez assina Miguel Torga em homenagem a Molinos, Cervantes e Unamuno;

1936 – Publica «O Outro Livro de Job»; Com Albano Nogueira funda a revista Manifesto, que terá apenas 5 números.

A Terceira Voz

Manifesto

1937 – Viaja até França, Itália , Bélgica, passando pela Espanha franquista.

Fotografia dos anos 30 de Federico García Lorca. MARCELLE AUCLAIR

Federico Garcia Lorca

Garcia Lorca, irmão:
Sou eu, mais uma vez…
Venho negar à humana condição
A humana pequenez
Da ingratidão.

Venho e virei enquanto houver poesia,
Povo e sonho na Ibéria.
Venho e virei à tua romaria
Oferecer-te a miséria
Duma oração lusíada e sombria.

Venho, talefe branco da Nevada,
Filho novo de Espanha!
Venho, e não digas nada;
Deixa um pobre poeta da montanha
Trazer torgas à rosa de Granada!

Indomável cigano
Dos caminhos do tempo e da ventura,
Sensual e profano,
O teu génio floresce cada ano…
Venho ver-te crescer da sepultura!

Bruxo das trevas onde alguém te quis,
Nelas arde a paixão do que escreveste!
Sete palmos de terra, e nenhum diz
Que secou a raiz,
Que partiste ou morreste!

Uma luz que é o oceano da verdade
Abre-se onde os teus versos vão abrindo…
A eternidade,
Na  pureza da sua claridade,
Sobre o teu nome, universal, caindo…

E o peregrino vem.
Reza devotamente,
Põe no altar o que tem,
E regressa mais livre e mais contente…
Assim faço, também!

Não Passarão

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Poemas Ibéricos

Criação do Mundo – 1º Dia

Criação do Mundo – 4º dia

Criação do Mundo – 2º Dia

A Criação do Mundo – O Sexto Dia

Criação do Mundo – 3º Dia

1937 – Publica a «Criação do Mundo – Primeiro e Segundo Dia».

1938 – Publica «Criação do Mundo – Terceiro Dia». Especializa-se em otorrinolaringologia;

1939 – Começa a exercer em Leiria como otorrinolaringologista;

1939 – Publica a «Criação do Mundo – Quarto Dia»;

1940 – Sai da cadeia do Aljube;

1940 – Casa com a belga Andrée Cabrée que lhe fora apresentada por Vitorino Nemésio; Começa a viajar por Portugal; Publica «Os Bichos».

1941 – Abre em Coimbra, no Largo da Portagem, o seu consultório de Otorrinolaringologista, que ocupará quase até ao final da sua vida; Publica «Contos da Montanha» apreendido pela PIDE; Publica a conferência «Um Reino maravilhoso»; Publica o primeiro volume do «Diário»; Publica «Terra Firme» e «Mar», duas peças de Teatro.

Casamento com Andrée Cabrée (Belga)

Consultório de Otorrinolaringologista

1949 – Publica o quarto volume do Diário; Publica Paraíso (Teatro).

1943 – Publica «Lamentação» (poesia); Publica «O Senhor Ventura» (contos); Publica o segundo volume do «Diário».

1944 – Publica « Libertação» (poesia); Publica «Novos Contos da Montanha»; Publica «Porto» (conferência).
Consultório em Coimbra

1945 – Sua mulher é nomeada professora da Faculdade de Letras de Lisboa.

1946 – Publica «Odes»; Publica o terceiro volume do Diário.

1947 – Por motivos políticos Andrée Cabrée é demitida da Faculdade, por ordem de Salazar; Publica «Sinfonia» apreendido pela Polícia.

Carta do Pai

1948 – Morre sua Mãe;

Maria de Barros costumava dizer ao filho que “lhe falou na barriga,” sinal de predestinação popular. No dia da sua morte, a 1 de Junho de 1948, Torga escreve o poema “Mãe”:

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti – não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!”

1950 – Faz uma segunda viagem a França, Itália e Suíça e Espanha; Publica «Cântico do Homem»; Publica «Portugal».

1951 – Volta a viajar por Espanha; Publica o quinto volume do Diário.

1952 – Publica Alguns Poemas Ibéricos.

Viagem por Pompeia

1953 – Faz uma viagem à Grécia e à Turquia, na companhia de outro grande amigo de sempre: o Dr. Fernando Vale, médico em Arganil, prestigiada figura da Oposição ao regime e mais tarde fundador do Partido Socialista.

A amizade entre Miguel Torga e Fernando Vale durou longos anos e foi duma rara fidelidade.

1953 – Faz um cruzeiro pelo Mediterrâneo; Publica o sexto volume do Diário.

1954 – Recusa o prémio literário atribuído por ocasião das Comemorações do centenário de Almeida Garrett; Vai ao Brasil a convite do Congresso de Escritores. Visita a Fazenda e locais onde viveu; Publica «Penas do Purgatório».

Viagem com Fernando Valle

Visita a Minas Gerais

Em Atenas

1955 – Nasce a sua filha, Clara; Publica «Traço de União».
1956 – Morre o Pai; Publica o sétimo volume do Diário.
1958 – É homenageado pelos colegas do Curso pelas Bodas de Prata de médico; Publica Orfeu Rebelde (poesia).
1959 – Publica o oitavo volume do Diário. Publica «Pedras Lavradas».
1960 – É proposto para Prémio Nobel por Jean-Baptista Aquarone, especialista em Estudos Luso-Brasileiros da Faculdade de Montpellier.
1962 – Publica – Câmara Ardente.
1964 – Publica o nono volume do Diário.
1965 – Publica Poemas Ibéricos.
1968 – Publica o décimo volume do Diário.

Apresentação da Neta ao Avô

Nascimento da filha Clara

Escrevendo à máquina

1974 – Sua Mulher é nomeada catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Publica o XII Diário; Publica Fogo Preso;

1977 – Vai a Bruxelas para receber o Prémio Internacional de Poesia;

1978 – É novamente proposto para o Prémio Nobel da Literatura; Recebe a medalha de Honra da Associação Internacional de Reitores;

1978 – Homenageado na Fundação Calouste Gulbenkian, pelos cinquenta anos de actividade literária;

1979 – É homenageado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Carlos Reis profere a conferência “ Miguel Torga e o Paradigma Perdido;

1980 – Prémio Morgado de Mateus; Publica A Criação do Mundo – O Sexto Dia;

1981 – A 10 de Março de 1981, recebe o Prémio Montaigne, atribuído pela Fundação F.V.S. de Hamburgo (Alemanha);

1981 – Publica Antologia Poética, organizada por si;

1983 – Celebra as bodas de ouro de médico; Publica Diário XIII vol;

1984 – Viaja até ao México na companhia do seu amigo o Padre Valentim;

Miguel Torga

Miguel Torga

Miguel Torga

Miguel Torga com Mário Soares

1987 – Publica Diário XIV vol.

1989 – Recebe o Prémio Camões, o mais importante galardão no âmbito da lusofonia. A cerimónia de entrega do prémio, presidida por Mário Soares, decorre em Ponta Delgada, nos Açores, durante as comemorações do 10 de Junho. A EMI – Valentim de Carvalho grava um disco com oitenta poemas de Miguel Torga, ditos pelo próprio.

1990 – É homenageado em Paris, no âmbito das comemorações dos 700 anos da Fundação da Universidade de Coimbra.

É homenageado pelo Instituto Alemão de Coimbra a propósito da edição na Alemanha de vários livros de Miguel Torga traduzidos.

Prémio Écureuil

Miguel Torga

1991 – A revista Le Cheval de Troie,de Bordéus , dedica-lhe um número especial; Publica Diário XV vol.

1991 – A Associação Portuguesa de Escritores, propõe o seu nome para o Nobel.

1992 – Recebe o prémio Vida Literária, atribuído pela primeira vez pela Associação Portuguesa de Escritores e financiado pela Caixa Geral de Depósitos;

1987 – Publica Diário XIV vol.

1989 – Recebe o Prémio Camões, o mais importante galardão no âmbito da lusofonia. A cerimónia de entrega do prémio, presidida por Mário Soares, decorre em Ponta Delgada, nos Açores, durante as comemorações do 10 de Junho. A EMI – Valentim de Carvalho grava um disco com oitenta poemas de Miguel Torga, ditos pelo próprio.

Miguel Torga com Manuel Alegre

Miguel Torga com Mário Soares

Gonzalo Torrente Ballester e Clara Rocha

No Porto realiza-se um Encontro Internacional sobre a sua obra.

Em Setembro de 1994, Andrée Cabrée Rocha lê a última mensagem pública do poeta;

Morre no dia 17 de Janeiro de 1995.

Enterro de Miguel Torga

Noticia da morte de Miguel Torga

Hospital Condessa da Canas de Arganil

Espólio oferecido ao Hospital de Arganil

Em 21 de Novembro de 1948, a convite do Dr. Fernando Vale que na altura exercia o cargo de Director Clínico do Hospital Condessa das Canas, o médico Adolfo Rocha especialista em otorrinolaringologia, começou as suas consultas nesse hospital.

Com o médico Adolfo Rocha veio o poeta e escritor, Miguel Torga.

São vários os testemunhos da passagem de Miguel Torga por Arganil.

No Teatro Alves Coelho, uma placa de mármore serve de suporte a uma frase do escritor:

Teatro Alves Coelho

Placa com frase de Miguel Torga no Teatro Alves Coelho

No primeiro aniversário da sua morte a Editorial Moura Pinto, prestou-lhe homenagem em S. Martinho d’Anta

Homenagem em São Martinho de Anta

Fernando Valle fala sobre o seu amigo, no cemitério de S. Martinho de Anta.

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